A Idade Média voltou a Óbidos durante 16 dias
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São artistas como estes que tornam o Mercado Medieval de Óbidos inesquecível

As ruas de Óbidos retornaram à Idade Média durante 16 dias. O Mercado Medieval terminou este domingo e o evento levou dezenas de milhares de pessoas à vila. Mas o que faz querer vivenciar e revisitar estas festividades é o ambiente e as pessoas por trás dele.

“É um mercado que tem um ambiente muito próprio, uma energia muito própria”, disse-nos Ruben Monteiro, dos Albaluna, uma banda com presença assídua no Mercado Medieval de Óbidos.

Foi lá, aliás, que o grupo musical “nasceu” para as atuações neste universo dos mercados medievais e dos eventos de recriação histórica.

Tocaram pela primeira vez no Mercado Medieval de Óbidos em 2009, ainda com outro nome e outro projeto. Como Albaluna já atuam desde 2010, um pouco por todo o país, de Norte a Sul, e também internacionalmente. Já estiveram em Espanha, Itália, Alemanha e Lituânia e vão este ano, pela primeira vez, a França. Contudo, nunca esquecem o lugar onde tudo começou.

“O Mercado Medieval de Óbidos tem uma grande importância para nós. Criámos lá fãs e pessoas que nos vão acompanhando, muitos amigos também. Acabámos por criar algumas raízes e temos feito questão de fazer sempre lá um concerto de apresentação de algumas das nossas obras”, contou ao SPOT+.

Para os Albaluna, cada sítio onde tocam tem uma dimensão única, especialmente os lugares onde acabam por retornar. Mas Óbidos tem, sem dúvida, um lugar com grande importância “por haver essa ligação já de tantos anos”.

Nesta edição, lá voltaram a estar presentes no mercado que os viu crescer, em dezenas de pequenos espetáculos espalhados pelo castelo de Óbidos. Durante as atuações vestem “um pouco o papel de músicos de rua”, trajados a rigor. As músicas que tocam são as mesmas que se podem ouvir nos concertos que dão em festivais, mas sempre num estilo completamente medieval, sem a bateria, o baixo e a guitarra. Nem por isso menos animados.

“Temos realmente mais fãs e pessoas que vão de propósito a Óbidos para nos ver. E isso é muito bom. É muito gratificante. Há sempre uma grande festa e é assim que recordamos durante todo o ano o Mercado Medieval de Óbidos. Em todas as atuações, seja numa esquina ou no palco, felizmente aparece sempre gente para fazer a festa connosco”.

 

 

 

E essa festa não estaria completa, nem teria o mesmo espírito, se não fosse pelos trajes típicos que os vários grupos musicais e de recriação histórica exibem, assim como os visitantes que escolhem andar mascarados.

Quem aluga um fato de nobreza, clero ou povo está longe de adivinhar, no entanto, o tempo que demora cada um a fazer e a arte que está por trás de cada peça. A responsável pelas vestimentas da casa de aluguer dos trajes é Natalia Pinheiro, que é “uma figura já mítica do Mercado Medieval de Óbidos”, como fez questão de dizer ao SPOT+.

“Do mercado tenho recordações de pessoas que voltam ano após ano, reconhecem-me através de fotos e reconhecem o meu trabalho através de publicações, e também que me conhecem aqui”.

Isto porque Natalia não está apenas vestida à medieval nos dias de Mercado, mas sim todos os dias do ano.

Andar assim disfarçada é a farda diária de trabalho, uma vez que tem uma loja na vila, na rua principal, a Metamorphosys, onde é possível alugar e comprar guarda-roupa da época e que “está sempre ao serviço também no Mercado Medieval de Óbidos”. O estabelecimento pertence à Associação Josefa D’Óbidos, que fundou e preside, que serve mais de 30 mercados e feiras medievais portugueses e espanhóis.

“É uma associação que tem uma parte de recriação de trajes e recriação de alimentação em acampamento. A associação tem agora ao dispor mais de 650 trajes”. Uns que demoram mais a fazer, como os da nobreza, que, pelo pormenor, podem levar uma semana até ficarem prontos, outros apenas alguns dias, como os do povo.

A título de curiosidade, contou que grande parte dos visitantes prefere representar as famílias nobres, pois “o mundo da fantasia vai sempre mais para a princesa e para a rainha. Mas o povo diverte-se muito mais!”.

E Natalia sabe-o bem, porque dá aulas de dança na sua Associação, que, para além dos trajes medievais, também incorpora dança histórica. A escola tem um grupo de dança medieval, que aprende a bailar como a nobreza e o povo da época. Este ano, o grupo pôde ser visto a interpretar o papel de camponeses, sob o nome “Toupeyrus medyevus”.

“Eu comecei nisto em 2004, a dançar, e ainda hoje continuo. Comecei a fazer os meus próprios trajes, depois para o grupo, e mais tarde, em 2009, fundei a Associação Josefa d'Óbidos e comecei a produzir guarda-roupa de aluguer. E ainda cá estou”.

 

Foto: Facebook Natalia Pinheiro

 

E está bem acompanhada. Gisela Pereira trabalha num lar, mas há seis anos que também faz parte da Associação Josefa d’Óbidos e integra os grupos de dança do Mercado Medieval. Durante as festividades, cuida de manhã dos idosos e à noite faz as atuações e os cortejos.

O “desdobrar” que pode parecer cansativo, vale sempre pena.

“Procuramos, naqueles breves momentos em que estamos em palco, fazer com que as pessoas viagem no tempo e vejam como eram algumas danças medievais, que nós estudamos e aprendemos e fazemos investigação para que aquilo seja tudo bem feito. E depois é ótimo e fantástico, porque quando dizemos ‘agora venham vocês dançar connosco’, apesar de alguma vergonha, quem vem diverte-se imenso”.

Para os espetáculos correrem na perfeição é preciso haver ensaios durante o ano inteiro, com regularidade. Todas as sextas-feiras juntam-se para aperfeiçoarem as técnicas. No Mercado ninguém dá por qualquer falha e até se torna difícil conseguir distinguir entre o original e a recriação histórica, pois todo o grupo está trajado “a rigor. Todos os adornos, desde o calçado, ao vestido e ao penteado, é tudo feito dentro do espírito”.

“É muito giro. Na última dança que nós fazemos, em que convidamos toda a gente, é muito giro ver as crianças todas, desde um aninho, dois, três, a dançar connosco. Então torna-se muito engraçado ver todas as gerações em palco”, contou ao SPOT+.

É muito deste espírito que torna o Mercado Medieval um dos mais importantes eventos deste género no país. Porque, nas palavras de Gisela, “estes 16 dias são vividos intensamente e parece mesmo que fazemos uma viagem no tempo e que estamos noutra era”.

Foto: Facebook Gisela Pereira

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